Wednesday, 2 July 2014

Soma

Eu senti gosto de acerola na boca recém-vermelha dele. Resultado das frutas colhidas antes que outros bichos invadissem o tão bem cuidado pé favorito do quintal da casa. Ele ainda tem esse mesmo cheiro de frio na barriga no começo do dia - que pra mim nunca foi exatamente de manhã - e acerolas. Nunca entrou muito bem na minha cabeça esse quintal todo cheio de mudas de temperos e pés de umas frutinhas de infância no meio de São Paulo.
Do mesmo jeito que eu, a casa toda destoava da cidade. E é porque eu não conheço os cantos certos de Sampa, como ele dizia. Do mesmo jeito que não conheço os cantos certos de mim. De novo, ele me levou praquele bairro de prédios desafogados do cinza asmático dos arranha-céus. Dava pra notar desenhos nas nuvens mas eu preferia o gosto fresco da boca dele desenhando tons invisíveis sobre a minha, coreografando as mesmas constelações que o sol escondia.
No fim da tarde, ele queima. Queima com os lábios carimbados em mim e a voz escondida no meu ouvido jogada em sinfonias quase silenciosas de pequenos desejos sem tamanho. Se coubessem todos na palma de uma mão, não precisaríamos nunca voltar pra casa com a pressa colorida de quem tem a coluna atormentada por arrepios. No começo da noite, ele queima. E o começo da noite pode ser a madrugada inteira e o final dela amarrado no começo daquele mesmo sol que esconde as estrelas. As mãos quentes conversam com os dedos entre as minhas pernas e os lábios dele e os meus dentes e as minhas mãos também quentes. Nós não precisamos de sol na nossa vontade laranja de consumir o calor das nossas próprias mãos e dos corpos desregrados, das línguas passeantes e dos gostos favoritos nas pontas dos dedos. E até derreter, nós não precisamos de sol.
Fora do tempo, ele queima.

Friday, 23 May 2014

I want you to see what happens to heroes...

Se fosse mais fácil utilizar travelings daqueles bem produzidos, eu começaria isso com um no maior estilo Gus Van Sant em Elefante, seguindo o personagem principal da cena. Mas aquela câmera é cara pra caralho e os trilhos mais ainda e meu material se resume a umas teclas de computador recém-formatado, o que estraga com qualquer possível romantismo idealizado pelos admirados de carrega nos dedos a vontade de viver para escrever - necessariamente nessa ordem. Além do mais, o desenvolvimento do personagem em questão pede uma estética mais suja, talvez um freehand onde você esquece do lugar que tem que ver, por conta da falta de foco e o excesso de movimento.   No fim das contas, a narrativa vai descambar para este caminho, mesmo, com olhos que, na verdade, vão enxergar melhor isso daqui projetando imagens no cinema cerebral sem uma captação externa que vá muito além das letras. Ah, o problema de orçamento...
Nessa parte aqui poderia entrar um fade ou um truquezinho de edição que remetesse à flashbacks, mas talvez fique num tom limpinho demais.
Corta. Um corte seco.
Começos de dias de ressaca tem um gosto de cor indefinida e um desagradável bafo matinal que não sai com primeiros bocejos. Os olhos tem que se preocupar em reaprender a focar objetos, regular o obturador e coisa e tal. Linguagem fotográfica não é muito o meu forte. Zoom In. Bem na cara do nosso personagem principal, talvez com uma trilha sonora tal qual a de Pulp Fiction quando referenciam o Zoom In dos Shaw Broters. Tã taran taraã. Só pra ele despertar bem.
Mas a ressaca sempre revira o estômago e dormir de cabeça pra baixo não ajuda. Ainda bem que nosso protagonista sabe fazer piadas muito bem enquadradas sobre a própria desgraça.
As velhas-novas tatuagens sem nenhum significados, pintam uma tela disforme, desigual e desequilibrada no exterior igualmente sortido dessas mesmas características. Por sorte, essas desajeitações formam um quadro interessantíssimo de se combinar com uma estética trash que tem lá suas legiões de fãs. E sobre um sorriso de dentes tortos deslizam ao mesmo tempo as temperanças psicóticas e as cordas bambas emocionais. Frankenstein, talvez. Nem todo monstro é mau, não é mesmo?
Deixa essa parte em preto e branco.
Alguns monstros tocam em bandas inspiradas em filmes - isso se encaixaria em metalinguagem cinematográfica, se eu estivesse filmando - e se desfazem em lapsos de ódio descalculado que desabam numa chuva ácida de saliva e socos.
Alguns monstros usam máscaras de luchadores só para se esconder de si mesmos, já que a identidade secreta é pouco secreta. Mas baseando-se em filmes também, a vontade de disfarçar-se de vez em quando ganha a de parecer coerente. Que convenhamos, no caso dele, não se manifesta com frequência.
Posso voltar a trabalhar com cores aqui, no instante em que se colocam, simultaneamente - ainda não pensei bem em como aproveitar os cortes dessa cena - a máscara no rosto e um doce na língua.
Porque monstros vivem em fantasias - induzidas ou não. Na sequência, um joystick nas mãos, porque quando se nasce na geração do nosso monstro, aprende-se que, às vezes- quando se é um monstro, a reclusão interior (e exterior) nos acolhe com nintendos.
Talvez aqui as tatuagens de videogames façam algum sentido. Ele poderia dizer duas frases com a narração em off. Ele poderia estar fazendo parte de um roteiro sobre como um cara decide sair por aí mascarado lutando contra bandidos, mas tenho a leve impressão que Mark Millar pensou mais rápido que eu nessa. Alan Moore até, antes dele.
Mas dizem que idéias boas nunca surgem de uma cabeça só, então quem sabe?
Entre os pedaços dum Frankeinstein que se faz de fragmentos de cinema e música, o trabalho diz de si que viver pra arte pode não dar resultado sempre, mas rende partes novas.
Mais e menos humanos. Transitam em um limiar de pouca realidade e baques com paredes tão reais quanto os vômitos-por-beber-demais depositados nos encontros delas com o chão. Afinal, monstros também tem estômago.
Ele acorda com aquele gosto de ressaca de novo na boca.
Um outro corte seco, sem sentido.
E monstros, nem sempre são monstros.
Tela preta, créditos barulhentos e erros de gravações pra quem ficar até depois.

Sunday, 18 May 2014

Conta-gotas

arde quando penso em escrever
sobre tuas lágrimas

sobre o jeito que
tudo que se derrama de dentro
dos teus olhos
despenca umidamente
afogando teus poros

e como marca teu rosto em rastro
de água salgada
esparramando o mar em ondas de soluço
pelo pano da minha camisa
pelo cheiro da minha pele

sobre como são pequenos nós
em pingos d'água que não se desatam
e tecem fios minuciosos para puxar uns aos outros

ou sobre como arde quando penso em escrever
sobre as tuas lágrimas

porque choro.

Thursday, 6 March 2014

Dormências

Ainda é como se borboletas dançassem em pedaços de mim, amarelas. Ainda sinto asas na ponta do meu nariz e você escorre entre os meus dedos e cochila devagarinho, acordando pela metade para piscar com esses cílios compridos que ventilam o quarto e montam legiões de fotos empilhadas no canto mais bagunçado de qualquer cômodo.
Meus pulmões são depósitos de borboletas. Elas moram já há um tempo em mim, por saberem que não tenho mais grades. Em dias que elas me preenchem todos os espaços o ar sai entrecortado traçando o ritmo ditado pelas mãos que agora dormem amparando o teu rosto numa tranquilidade de penumbra, num escuro de feixes dourados onde nadam pensamentos em forma de peixinhos coloridos. Eles também escorrem por mim, passeando entre os meus cabelos como se pudessem se abrigar. Mas incomoda os bichinhos que a minha cabeça faça tanto barulho. Antes de mim, eles já tinham reparado no jeito que você machucou as próprias mãos tantas vezes por desafiar-se, por criar abrigos indevidos em beiradas e tenho novamente um daqueles impulsos de te encher de beijos e nunca, nenhuma vez sequer você se assusta em meio ao despertar súbito que isso te causa. Nem com as minhas opiniões sobre caminhar no teto ou com a minha indisposição pra organização.
Teus olhos castanhos carregados me servem de marca-páginas das minhas leituras interiores de vez em quando, pra me lembrar da liberdade de ter essas ferramentas de vôo debatendo-se em mim, me inquietando o espírito, afastando mais os peixinhos que agora passeiam sonolentos em volta da luz do abajur e você ainda no limiar do sono diz que não faz sentido eles parecem mariposas em volta da luz que ainda está apagada.
Talvez eles estejam esperando o Sol.
Mas uma lâmpada não serve.
Estão ambos apagados por enquanto, não faz diferença.
E nesse pequeno silêncio pós diálogo, são feitos dois pedidos atendidos de prontidão pela boca de onde escapava o ar que eu esquecia e nos seus lábios e nos meus, ninguém sabe quem venceu a corrida para se encontrar primeiro.
As sedes convergem, os peixinhos saúdam a um sol que invade em onda tudo o que adormecia. Eles nos deixam com o vai e vem das ondas batendo nas cortinas que você não quis deixar completamente fechadas.
Catarse deve significar isso.
Tem borboletas nos meus pulmões.

Thursday, 13 February 2014

maria das dores

eu quero meu corpo de volta
levem as roupas que vocês me obrigaram a usar
levem, levem todas
e esse cabelo que não é meu
podem raspar, ou então me deixem
deixá-lo crescer
da cabeça aos pés
porque eu pêlo não é vergonha
o meu corpo não é vergonha
o meu corpo não é de vocês

o meu corpo não é um artigo de loja
e vocês ainda o vendem
emprestam
trocam
tocam
[mesmo que não seja de vocês
mesmo que eu diga que não
mesmo que]
e dilaceram violentamente
o meu amor por mim

por isso eu quero meu corpo de volta
pra que seja meu, pra dar, pra não dar
pra raspar
dobrar
para engordar fora das fitas métricas nas quais vocês me enforcam

eu quero meu corpo de volta pra receber visitas desejadas
sem forçar as fechaduras
eu quero as minhas chaves, sem cópias, só minhas

que o meu corpo é minha casa.

Wednesday, 12 February 2014

Buquê de parede

doze rosas
com sessenta espinhos
circulam duas vezes
pra morrer num dia
e dois
e três
e anos.

doze rosas
com sessenta espinhos
enfeitam de rugas
o rosto coberto
de ontens.

doze rosas
com sessenta espinhos
que pesam
no caixão.

enforcamento insone I

desenlaço
sem charme de espartilho
os cadarços
que eu esqueci
o que amarram

e tropeço
nessas mesmas cordas
que se fazem
forca

o sorriso arfa
e desce 
goela abaixo
pra quebrar o resto do pescoço

tudo morre
num nó cego

Ch ch ch ch changes

o tilintar
da rua da moeda
nos meus bolsos
contra os versos
co’outros versos
conta os versos
sem economizar
[pode ficar com o troco]