Wednesday, 29 June 2011

Versinhos de buquê.

À Anne.

Seriam as Tulipas
as tuas flores favoritas?
Ou preferes o Lírio?
Quem sabe a Margarida
ou talvez o Narciso?

Gosto de te dar Chuva-de-Prata
Que são pinguinhos de nefelibata
E ficam bonitos no teu cabelo ondulado.

Ainda tem os Copos-de-Leite
Que servem de enfeite
Pra colocar no café.

Ademais, Jacinto.

Monday, 20 June 2011

A vista do lado de cá.

Está um bocado frio por esses dias. Ou talvez nem esteja e eu tenha me desacostumado com as quedas de temperatura. Inegável mesmo é que está ficando seco. Tanto que estou ficando amarela-meio-marrom, assim, nos cantos onde me enfeitaram com grama. As árvores já reclamam do peso das folhas e desfazem-se delas a noite, quando ninguém está olhando. Minha via principal ainda está a mesma de quarenta anos atrás – com as pegadas no cimento e os nomes dos namorados adolescentes que nem chegaram a se casar. E volta e meia passa por aqui um garoto. Guri meio desorientado mesmo, que caminha olhando pros sapatos vermelhos. Aliás, ele anda de sapatos vermelhos e meias listradas! Parece um personagem daqueles de desenho animado que as árvores bisbilhotam pelas janelas dos apartamentos.
Esse menino curioso que mais parece um velhinho, – já que lê jornal sentado no banco em manhãs de domingo, bem aquele retrato que a gente guarda dos tantos avós que a quadra teve – tem passado por mim com uns olhos pesados, andando mais sem compasso do que nunca. E é tão estranho isso, não escutá-lo mais cantarolar as poesias que ele tem tanto apreço. Quando ele se vê afundado assim na melancolia, minha vontade é transformar meus ipês em braços e segurá-lo afastado do mundo. Quiçá, deixá-lo a observar o céu com aqueles olhos atentos, para que ele pinte os desenhos que fizer com as estrelas nas telas daquele ateliê.
Ontem, se a memória não me falha, vi-o mais cabisbaixo do que nunca. Usava uma roupa comum demais, que não serviria bem em algum vovô, como costumava ser. Muito cheio de ausência: tanto de cores quanto do olhar verde e absorto. O menino não estava mais melancólico, não. Estava triste e não com aquelas tristezas sem motivo que de vez em quando aparecem por aqui – sabe como é, bairro meio aristocrático, essa Asa Sul, e algumas pessoas gostam de achar problema nos cantos das pias. Ele estava menos do que nunca e faltava naqueles olhinhos verdes alguma coisa, que talvez fosse até a cor.
Não havia reparado em como ele deixara o cabelo crescer, – e olha que eu sou muito atenta! – nem em como eles agora cobriam as órbitas quando ele mantinha a cabeça voltada para os pés com sapatos normais e meias brancas. Nada de cor, nem mesmo os cabelos meio-loiros dele refletiam mais o Sol.
Aqui eu escutei-o sussurrar.
Sentou-se de costume no banquinho vermelho de sempre e começou a anotar qualquer coisas na própria mente. Descobri pelas palavrinhas que o vento não deixou-o derrubar no chão – com esforço, porque estavam bem pesadas – que ele perdera . Perdera enquanto se distraía no meio dos quadros da própria casa. Perdera enquanto conversava amigavelmente sobre a prosa de Galeano, até que acabaram-se os olhos que o enxergavam. Acabaram-se n’um Adeus impronunciado. Então, não tinha mais aquilo que lhe fazia pisar de forma diferente no chão que se dispunha quase sempre duro demais sob os pés. No meio da animada conversa literária, o menino notou que havia perdido os sapatos vermelhos.
E não quis mais usar meias coloridas.

Thursday, 19 May 2011

Bafômetro.

Ao Temulento Jornalista.


Fiz um amigo essa semana. Amigo de verdade. A gente toma cerveja junto e isso já define um conceito complexo de amizade real, afinal, não é todo mundo que agüenta os quiçás cobertos de álcool. Thiago, o nome dele. Rapaz meio fraco, formado n’um desses cursos que todo mundo almeja – diferente do meu, que nem diploma precisa mais pra exercer a profissão. Conhecemo-nos por aí. Certo, eu conto, foi durante uma dessas homenagens cinematográficas às versões mais antigas de Star Wars. Minha namorada disse que é bom que eu arranje uns amigos (até porque é bom ter alguém pra me levar pra casa depois de ter ultrapassado meu limite etílico). Tornamo-nos bons amigos, até.
E vivemos cá nessa roça. Temos umas poucas fontes de entretenimento, entre elas, o Bar do Zé. Ou muitos deles. Será que pertencem ao mesmo Zé? Enfim. O caso é que, calma, deixe-me lembrar. Ah, sim. O caso é que estávamos no último fim-de-semana n’um dos bares do Zé – fizemos um trato de conhecer todos os bares do Zé da cidade, mesmo que eu considere impossível – e eu cantarolava muito despreocupadamente uma música que o Thiago não adivinhava por nada-nesse-mundo qual era. Engraçado, porque eu sempre canto bem depois de umas (muitas, convenhamos) cervejas. Acometeu-me um transe repentino, rapaz. Não consegui olhar pra mais nada além da placa de pare que se posicionava imóvel logo ali naquela esquina. Thiago sussurrou alguma coisa no meio de dois filhas-da-puta mal pronunciados e eu saí andando com a rua se mexendo sob os pés. Ou era eu quem estava mexendo sobre a rua? Não sei rebolar, devia ser a rua mesmo. Em todo caso, as coisas melhoraram quando consegui atracar-me à placa com o riso solto – daqueles que te fazem babar às vezes. Thiago virou pra mim com aquela cara sem óculos e disse com a voz rápida demais pr’eu entender:
- Ô, Victor. Victor. Victor, prestenção! Onde é que tem outra placa dessas? – No meio da frase ele já havia desviado os olhos de mim e contemplava feito um doente mental aquela forma octogonal sobre nossas cabeças. Eu respondi com um gesto apontando na direção de um cruzamento que eu tenho certeza absoluta que estava lá. Ele deu uns passos na direção oposta e riu. Sumiu na esquina voltou uns cinco – ou mais – minutos depois com uma chave de fenda do tamanho do meu antebraço e saiu desparafusando a minha placa.
- Ei, essa a placa a minha. Larga! – Eu esbravejei no tom menos embriagado que a minha voz permitiu e comecei a puxar para mim a placa que despencava. – Eu achei, é minha!
- Mas quem desparafusou fui eu, então é minha! – Gritou com a voz desafinando no meio da frase o amigo-que-estava-virando-oponente.
Como um estalo na cabeça, me veio a idéia. Iríamos apostar. E quem conseguisse mais placas... É, ganharia alguma coisa. Dividi de imediato a minha brilhante ponderação com Thiago, que tirou não sei de onde, uma outra chave de fenda.
Corremos pois, com o chão sambando sob nossos pés e o mundo girando em nossos olhos. Eu estava até bem – conseguia fazer um quatro perfeito com as pernas depois de cair no chão.
Acho que nunca corri tanto na vida. Depois da quinta placa eu já não sabia mais onde estava, mas enxergava o Thiago uns metros à frente – assim, meio pra esquerda e se eu entortasse a cabeça ele ficava reto. Eram cinco. Uma de Parada Obrigatória, duas daquelas de faixa de pedestre que ninguém obedece e mais duas que não eram iguais, que eu também não recordo o desenho. Thiago tinha duas a mais, isso porque havia conseguido pegar aquela primeira – que era minha!
- Victor, como é que vocês roubaram doze placas? Claro que não. – E essa era a minha namorada me desmentindo. Mas eu tenho certeza que havíamos roubado.
- Bêbados não mentem! – Eu retruquei com dedo em riste e virando o resto da lata de cerveja que já havia muito estava quente. Uma careta e pronto, voltei à pose de defensor da causa.
- E nem sabem contar.
Se eu parar e pensar bem, ela pode estar certa. E acho que nem deitado eu consegui fazer aquele quatro com as pernas.

Se ladrilhar não se pode, estendem-se as linhas.

Escrito com a Anne.

Passei dois mil dias e meio a desfiar um pano
Para fazer linhas - meio elásticas -, bem fininhas
Guardando e solvendo em vida maior engano
Posto que dele envolvem-se em pé as entrelinhas.

E no meio dos nós que fiz nas pontas
Enlacei a tua vida meio destoando da minha
Correndo em frente, mas com a mão na tua
Do passado que se já não se lamenta é que
Pende-se ao versejar tão seguramente pela rua.

Mas eu esqueci que quem corre demais, tropeça
Quando vi, já tinha embolado as pernas todas
Naquela mesma linha que amarrei lá na frente
Não teve jeito: caí de ponta-cabeça.

Pregou-me o lume do vagalume quente
Caiu-me ao certo, bem no peito
Como quem queria pô-lo num letreiro:
Quem muito vê, turvo enxerga o horizonte já feito.

Me diria, então, meio cega e com defeito
Fiz careta com o gosto do barro vermelho
Que sujou a roupa, o corpo e cá dentro
Além de tudo, me rasgou o joelho.

E eu crendo em crentíssima crença
Na divindade do amor que me governa:
Não há um só momento que valha
Todas as linhas já postas ou a interna,
Que não desfaz-se por nada da tua
Na verdade, ela se mistura
Pr'eu me confundir cada vez mais
E tropeçar outras cem mil vezes
Se não aportar no mesmo cais.

Friday, 6 May 2011

Pra você encontrar seus sapatos.

Para Daniel Silistensen.

O menino que é dono do Nino
Se perde no outono
Que o Quintana escreve
E se derrete no pousar leve
D'um pincel que desenha um violino.

E
Vai
Descendo
As escadarias

Da biblioteca
Ao som das cotovias
Que tricotam as histórias
Antes da hora da soneca.

E o menino que é dono do Nino
Se esconde nos livrinhos empoeirados
Faz questão de arrumar os sapatos (vermelhos)
Antes de ir caminhar com seus passinhos de felino
ou poeta.

Friday, 15 April 2011

O tropeço que dei em Vinícius.

Disse com a mão no peito, em juramento
Que de tudo, àquele amor seria atento
E repetiu o sempre, o muito, e o tanto
Com um sorriso de contentamento.

Mas desgastou o canto dos lábios, tonto
Da finitude do tão honroso sentimento
Que ele cultivara sob o saudoso manto
A salvo das pragas e do relento.

E o eterno retumbou no esquecimento
Ouviu-se o sussurro de acalanto
Que deu por último, o amor (sem rima)

Que se morreu, então, n'um vão momento
Desencantou em face d'outro encanto
E desfez-se o riso solto em pranto.

Thursday, 14 April 2011

Sobre poços inundados.

Mais um feito com o Cadu. Os meus tão em itálico

- Não dou conta mais. Sabe que o meu maior medo no mundo é lhe pôr em minhas linhas? Porque quando eu escrevo me saem das veias tudo quanto é coisa que o meu coração bombeia. E ele só sabia lhe bombear. Só fazia aquele bate-entra-sangue-bate-sai-sangue porque o seu peito badalava o relógio de qualquer coisa que havia em mim. E eu lhe escrevi. Ah, mas que dor que dá lembrar das minhas auto-destinações para você. Rasga. Rasga forçando o som do erre pra sentir mais forte. Você sussurrou e o Adeus escapuliu por entre os seus olhos que dormiam semicerrados de medo ao meu lado.

- Eu menti, menti porque eu sou só mais um humano que peca e faz toda a coisa errada tentando se encontrar. A minha alma pesou e eu não sabia se você ia suportar sozinha. Foi o meu erro querer tirar das costas todo o peso da minha bagagem? Eu sou um cafajeste por querer jogar na vida toda a minha culpa, mas que eu posso fazer se você se mostra tão resignada, complacente e bá bá bá? Eu me recuso a aceitar que você ainda me aceite. Não é falta de amor não. É que eu penso em transgressão e contigo eu não consigo. Porque o meu erro nunca foi falta de amor, nem de caráter ou de percepção. É que eu não sei como amar. Como rasgar de vez o peito e deixar alguém ir cortando pra costurar do lado a parte que falta. Eu não sei suportar a dor que é dividir um mundo acompanhado, mas eu quero. Eu queria ter pelo menos tentado deixar você me ensinar. Eu sou um cacto. É isso. Quando tentam entrar em mim - bem fundo - eu furo. E às vezes eu mato a expectativa que alguém tinha de se achar dentro de mim.

- Pior de tudo? É cogitar a possibilidade de lhe ter de novo e ver o quão feliz isso me faria. É, apesar de tudo que as outras bocas me falaram, não consigo lhe culpar em nenhum canto. Talvez eu até lhe culpe, mas aí seria me culpar também. Essa inconseqüência que me acabrunha a existência só me faz ferir e faz o martelo das pulsações esmagar-me os dedos e os tudos. E nada de conseguir me mexer. Nunca mais. Eu corria pra um caminho meio esburacado, mas certo. Agora tô tão perdida que se eu achar um resto de trilha, já melhoro. O problema é os pés me obedecerem, porque tudo parece tão irremediável. Já dizia o poeta: Todos os meus caminhos me encaminham pra você. Então, não quero mais um caminho, quero a saída e quero já. Cansei de brincar de labirinto. Mas morro de medo de sair dele. Aquela coisa que a gente acaba aprendendo que não é verdade de achar que amor só acontece assim uma vez, desse sentir intenso que arrasta tudo. Amor nunca é igual, eu sei. Mas tenho pavor, mesmo assim. Só quero outro se for maior. E não é troca, não. É medo, daqueles que fazem a gente se agarrar ao travesseiro a noite com o peito explodindo de tristeza por não ter mais coragem de nada.

- Eu cortei, cheio de erros, a única coisa que tinha certeza de ter tido. E me culpo. Que nada do que eu diga nessa sala ou em qualquer outro lugar do mundo vai caber de volta no seu coração. Refazer qualquer história é difícil. Que antes de qualquer começo a gente tem de se livrar da pendência e eu não me livrei. Enfiei a cara nas duas coisas e nem sabia mais o que era razão, fidelidade e todas essas coisas que a gente julga ser tão importante numa vida conjulgadamente amorosa. Eu não, não quero qualquer desculpa, Coração.

- Eu calei. Calei as palavras e todo o entulho bagunçado que eu acreditava ter conseguido ordenar de um jeito que coubesse a tempestade nossa de cada dia. Agora... Bom, agora eu tô te transferindo pra essa folha, te sinto passar pela tinta da caneta mas você não sai daqui de mim, porque me levou embora. E cadê? Isso, fica quieto que é melhor, porque se eu ouvir a tua voz, sangro. Sangro pra todo mundo ver ao invés de só carregar em mim a hemorragia.

- Sei, vai doer em você me ouvir cuspir o que já virou passado. E passado é uma palavra tão bonita, mas vem tão cheia de dedos e mãos e pontapés. Que me acuse, pois fui covarde para não dizer não. Fui covarde nos tantos sins que fui jogando pela vida. A vida tem dessas de querer fazer da gente um monte e depois a gente esquece até de quem foi. É esse o problema, eu esqueci do significado e da importância que tinha pra você. Eu esqueci do que eu era, esqueci da gente e pus uma vírgula muito grande no meio. A vírgula também tinha nome e você não suportou.

- É que toda vez que eu tento aparecer com um ponto final, você me vem com uma vírgula, me puxa assim, pra fazer o ponto meio riscado pra baixo. Ou então me põe reticente. E cadê o "não" que estava na ponta da minha língua? Virou uma vírgula tua também. Uma pausa de dois segundos n’um de nossos assuntos fluidos, ou n’um olhar que você desviou. Se for pra ir, vai de vez. E se quiser ficar, aí eu não sei como faz. Mas começa de desfazendo, que eu vou fazer o mesmo, pintar tudo de branco de novo.

- Eu fui me acostumando a pôr o coração dentro de uma bolha. Se por medo, não sei informar. Mas fiz. E refaria. Num mundo cheio de Zés e Marias sem coração a gente tem de ir achando um jeito de ir se protegendo. E eu fui me escondendo, fui pegando ferros, dissolvendo, me ferindo. Até me tornar essa coisa dura e imperfurável. É coisa da idade. Dessa idade que pesa tanto na vida da gente. Os costumes, a cumplicidade e as variações são tão grandes. Eu não tenho mais tanta força pra transferir o amor. Tô te amando desde sempre, mas nem sempre o pra sempre quer dizer convívio. O que dói nessa história toda é a mágoa. Não quero te ver cultivar lama de porco. Joga fora, se lava com água e cai na vida, coração. Vai ser feliz. Vai. Eu não sei como é que se faz, mas não fica aí catando esmola do passado. Nem cultivando porcaria. Eu te deixo ser, então me deixa ser também! Porque se a gente se esbarrar num dia bonito o céu não pode viver caindo sobre as nossas cabeças.

- Bateram na minha porta por esses dias. Eu não estava. Mudei de casa, virei errante, eremita. Sim, eu até cheguei a achar que tinha uma bela casa, bem decorada, bem construída e com espaço suficiente para agüentar o peso estranho que eu carrego costas. Acomodei-me no sofá por tempo demais, confortável demais e tudo sumiu. Terremoto? Não. A casa nunca existiu. Apenas isso. Sempre fui uma sem-teto. E agora além de estar sem casa eu perdi o amparo das palavras e não sou mais passarinho, porque não sei mais voar. Você quebrou as minhas asinhas já meio machucadas, olhando nos meus olhos pra eu não esquecer como se faz. E eu? Eu disse que tudo bem e me entreguei sabendo de tudo antes mesmo de você me contar. Está surpreso? Pois eu também. Eu tapava meus próprios olhos, mas sempre passava por mim uma fresta de luz que eu abafava com o tom daquela música que eu não consigo mais ouvir sem convulsionar.

- Você é um trem, Coração, e eu sou a estação. Com a gente não podia ser de outra forma. O coração é uma moeda de troca e a decepção é o que a gente recebe de volta. Nada nessa vida é nunca nem sempre. O conformismo é que dói. Dói além de todas as outras dores, mais forte. Que se for preciso cair: Caia. Erguer-se é sempre uma dificuldade, mas ninguém nunca ficou virado de cabeça pra baixo a vida inteira. Que se dói agora, passa. A gente é sempre passagem. A gente vai morrendo em cada poço que a gente cai. A gente vai recriando a cada vida que a gente tem, mas eu pago resgate pra me ter de volta. Eu pago resgate pra você se ter de volta. Porque como eu também não sei o que fazer do que me tornei, acho que você também não sabe o que fazer desse ser que é. Erros são remediáveis, mas quando se está ciente da culpa. Por isso esqueça o perdão, a mágoa e qualquer erro que por nós tenha passado. Esqueça ou guarde-os no fundo mais fundo do poço grande que é o seu coração.

- Você me falta aqui entre os dedos das mãos.

- O amor é que tem essa mania de pertencer só aos bobos, mas um dia a gente aprende o jeito...

Wednesday, 13 April 2011

Vou Esquecer da Homeopatia.

Escrito com o Cadu.

Ontem, por demasiadas vezes, tapei os olhos com muita força pra não me ver chorar.
Ando fragilizado por demais com essa minha vida. É quase como se ela não tivesse batido ou ido de encontro com o seu sentido. E não tem como estancar aquilo que a gente não sabe se tem cura. Tem? Já sei, você vai dizer que tem, e eu vou lhe dizer que sou hemofílico. E de novo você vai retrucar dizendo que tem. E eu só vou rir.
Vida é quase como morte. Não tem remédio.
A gente seca todinho pra ir sangrando de novo e de novo e de novo.
Perdi a minha fome de ter alguém. A fome – que era quase loucura – de transbordar e transpassar todas as coisas pra ter amor no colo. Sei lá se foi a idade que foi me deixando assim tão ácido e cheio de pesos maiores do que a minha força. Tudo é na flor da pele. Taca e re-taca, sabe?
Tô triste assim porque não tem ninguém pra me ser ócio. Queria eu dar aquelas cavalgadas bonitas que só quem tem felicidade sabe do prazer que dá.
Olha, tô aceitando de verdade que o amor e a vida são feito o ovo e a galinha.
Perdi sim a essência das coisas. Descobri, de maneira dura e com tantas perdas, que a vida sem amigos te faz encher um rio inteiro. E a gente escorre e recorre pra colo de pai e mãe que nem sempre vem. Tá tudo mesmo, indo pelos cantos tortos, incertos. Aqueles caminhos tortuosos e desconfiados que a vida faz e refaz o tempo todo.
Ruim mesmo é quando você, num desses caminhos, enfia o pé na merda. Aí você se despe, toma um banho, se lava inteirinho. Só não muda o corpo e alma - que é o que tenho tido vontade de fazer.
Eu sou a merda por onde as pessoas têm enfiado os pés. E pisam em mim com tanta força. Esquecem que sou mole e me acabo. Não reclamo, não. Me aceito assim mole, frágil, estragado. E quero, quero sim que alguém me aceite com todos os meus defeitos. Porque há em cada linha que escrevo, um outro que nunca vi, mas que sempre estará dentro de mim. Entende? Nem eu. Mas deve ser o outro escrevendo agora, ele deve saber.
Em mim, há desconhecido. Esse outro, mesmo. A necessidade de ser o outro, de ter o outro e de também me ser. Mudei tanto que me vejo em esboços embaçados, tanto pelo tempo, quanto pela orgia da vida. Pelo mormaço que o amor causou nestes anos. Tenho cá tantos sintomas. E dentre todos, o que mais me sufoca é a dor. Maldita essa senhora que sabe torcer o tempo de um jeito tão derretido que as horas não passam, só doem. Doem até aqueles milésimos de segundo que fazem a diferença pro vencedor da corrida. Mas sabe, eu não quero correr mais, então pode doer, Tempo, pode doer à vontade que eu vou fingir aqui comigo que não sinto nada, que tomei xilocaína ou qualquer droga que me faça esquecer o corpo. Fingir mesmo, e você nem vai notar. Sou melhor nisso do que aquela porcentagem enorme de mulheres que fingem orgasmo, porque olha, eu finjo que to vivendo, que to respirando e que eu ainda enxergo o céu. Tô fingindo agora mesmo que to fingindo. Aliás, vou me contradizer logo de vez e dizer que não sei fingir. E que ademais, vou ficar me repetindo. Agora eu só quero é vomitar esse sangue que não é mais meu, esse cheiro doente de quem tem um peito aberto e necrosado. Aposto que prometeu era bem mais feliz, porque aquele fígado ao menos se reconstituía. O coração não, ele só parece que não acaba nunca, mas apodrece e morre o tempo todo, sem renovação plena, porque a dor dobra mais o tempo pra que a águia venha devorar os pedaços. E não é só uma, são várias juntas. Águia, Urubu, e gente. Parece que gente gosta do cheiro de dor que é uma coisa.
Não quero concluir mais nada. Deixe eu ficar aqui quieto e ter um infarto pra deixar a frase pela metade. Ah, quem dera que fosse só desejar. Não, não quero mais morrer. Quero só não morrer vivo do jeito que estou. No fim, eu bem sei que a vida é minha AIDS e que eu não sou soropositivo. Tô aidético mesmo, vou durar menos que Cazuza. E pior, não tenho dinheiro pra pagar os Coquetéis e o hospital sumiu. Ou foi demolido. Eu não lembro mais.