Thursday, 9 August 2012

Prosa acróstica

No começo do fim de tudo, parece ser apenas nada. O que? Tudo. E a vida segue o fluxo turvo de rio pra quem reluta em se dizer poeta. É tempo de águas agitadas, mas nem a tempestade tem força pra aparecer. E quase na metade do leito desse rio, há uma canoa.
Oscliva quieta na correnteza e carregava o mesmo menino que a escondera no nome durante um percurso esquecido (antes ou depois do rio). E ele também oscilava. Um pouco mais que todo o resto, por sentir-se tão vazio. Quase como se o vento fosse soprar e levar a pele que recobria alguma coisa oca. Mas sentia, apenas. Não sabia ser vazio nem mesmo quando estava e, agora, o nada dos fins fazia latejar o interior de si pra arranjar espaço. Instalou-se e esmagou a alma que já não cabia direito no corpo. Fez doer, porque o órgão mais vital da existência comprimia-se tentando dar a volta no buraco de bordas doloridas no qual ele se via na iminência de cair.
Agoniava-o não conseguir chorar, do mesmo jeito que eu sempre te disse que eu não gosto de segurar choro, porque aí não consigo abrir espaço entre minhas tristezas.
Na verdade, eu sempre vi esse menino como alguém onde eu me enxergava e por isso me afligia vê-lo assim, por me sentir da mesma forma que ele. Meu nome sempre foi neblina demais e era agora como ele via. Não através de mim, mas da mesma forma turva que eu. Que o rio. No fundo era a mesma coisa e nada e, por isso, deixei pra ele dentro de um livro de poesia de folhas secas prensadas, um bilhete que eu já escrevera pra mim: Nada pode virar verbo e remo.

Wednesday, 8 August 2012

Achado no canto da página

É quando a carne tá de
pijama e olheira
que a poesia bate à porta
pra ficar
a noite inteira.

Tuesday, 7 August 2012

Cantiga sem roda

O mundo gira no mesmo lugar
e só continuo
sem ciranda
pedindo pra alma revirar
qualquer pedaço
pra vê se acha o meu nome
(na varanda).

Thursday, 2 August 2012

Nota de criado-mudo I

Nem tudo que é metade faz uma boa referência à Fellini.

Thursday, 26 July 2012

Afluente

Rio
de Janeiro
e o Capibaribe
são dois
verbos
no presente.

Tuesday, 17 July 2012

Canoa(n)

A Noan Moraes

Tu tens dois pés no nordeste
que dançam reggae
e as pontas dos dedos
no sul
[pra fazer trabalho acadêmico]
e fala correto
conjugando os verbos
em segunda pessoa
sem errar

isso desde que te conheço
e não lembro a minha idade
mas tu tinhas
dezesseis anos
e ainda tinha
os pés e as mãos
no nordeste

também desde que te conheço
tu colecionas
armas brancas
e quadrinhos

desde esse tempo, além disso
tu tinhas o teu órgão literário
meio assim, atrofiado
e que não batia no peito

afinal tu és poeta
e sente o mundo bagunçado
no teu corpo
que ama
com o cotovelo
e apóia
na mesa
o cérebro

se tu achares
o lugar do dito cujo
não contes nem pra ti
nem pra ninguém
que poesia é feito rio
mesmo em prosa
e nem sempre é bom
saber onde deságua

Monday, 9 July 2012

Licença: A poética

A poesia está revirando os olhos.

A rima com cigarro
tá tão gasta
que já não acende

e o café
esfriou
porque ninguém
en
gole
mais

Zé, coitado
tá com os ouvidos
cansados
de tanto ouvir
reclamação.

tá pra cortar os pulsos
igual ao sujeito
dos cigarros acabados
mas sem errar o corte
e sem remendar
com band-aid
a falta de verso
alheia

o cansaço
metafórico
acabou mais literal
e me deitou
no travesseiro

e eu não vou chorar
lágrimas de crocodilo
pela poética
que se aposenta
em mente nova

prefiro virar
parábola
pra jogar semente
de poema
nos pedros
thiagos
e marias madalenas

se não servir
eu coloco o acento
de volta
na idéia.

Sunday, 10 June 2012

Ciência do Maldito

Com André Monteiro.

por que não dar um porre
ficar bêbado
de vinho-tinta
inebriar o poeta
e vomitar o profeta
que quer blues na arte que pinta?

poeta é balão
de ar quente
que deixa rastro
eólico
pelas terras marítim(ic)as
de um quântico verso
líríco qual universo
Tártaro como o Elísio

poeta é Karamazov
é protótipo de Édipo
é Ham(let) aos famintos
é Palhaço ao poço
é... a gente quer valer
o pão de nó e osso
atalhado pela navalha
dos dias
das disritmias
no espelho debaixo do tapete

poeta é o chão esquecido
e os pés que dançam sobre o ar
é o interior revolvido do poema
e a onda que desfaz o mar
(dentro dos olhos
antes de chorar)

poeta é sazonal
feito de alma em mobral
e diz: rima acidental

Pra começar a estrofe diferente
sem o poeta, que se faz gente
e nem por isso deixa de ser poeta.

E sê-lo não o faz profeta
talvez um pouco mais poeta
repetindo-se na rima falha

Poeta não se alimenta de migalha
da alma de ninguém
e muito menos retém
o que a sua pode dar

poeta é armadilha...