Thursday, 2 August 2012

Nota de criado-mudo I

Nem tudo que é metade faz uma boa referência à Fellini.

Thursday, 26 July 2012

Afluente

Rio
de Janeiro
e o Capibaribe
são dois
verbos
no presente.

Tuesday, 17 July 2012

Canoa(n)

A Noan Moraes

Tu tens dois pés no nordeste
que dançam reggae
e as pontas dos dedos
no sul
[pra fazer trabalho acadêmico]
e fala correto
conjugando os verbos
em segunda pessoa
sem errar

isso desde que te conheço
e não lembro a minha idade
mas tu tinhas
dezesseis anos
e ainda tinha
os pés e as mãos
no nordeste

também desde que te conheço
tu colecionas
armas brancas
e quadrinhos

desde esse tempo, além disso
tu tinhas o teu órgão literário
meio assim, atrofiado
e que não batia no peito

afinal tu és poeta
e sente o mundo bagunçado
no teu corpo
que ama
com o cotovelo
e apóia
na mesa
o cérebro

se tu achares
o lugar do dito cujo
não contes nem pra ti
nem pra ninguém
que poesia é feito rio
mesmo em prosa
e nem sempre é bom
saber onde deságua

Monday, 9 July 2012

Licença: A poética

A poesia está revirando os olhos.

A rima com cigarro
tá tão gasta
que já não acende

e o café
esfriou
porque ninguém
en
gole
mais

Zé, coitado
tá com os ouvidos
cansados
de tanto ouvir
reclamação.

tá pra cortar os pulsos
igual ao sujeito
dos cigarros acabados
mas sem errar o corte
e sem remendar
com band-aid
a falta de verso
alheia

o cansaço
metafórico
acabou mais literal
e me deitou
no travesseiro

e eu não vou chorar
lágrimas de crocodilo
pela poética
que se aposenta
em mente nova

prefiro virar
parábola
pra jogar semente
de poema
nos pedros
thiagos
e marias madalenas

se não servir
eu coloco o acento
de volta
na idéia.

Sunday, 10 June 2012

Ciência do Maldito

Com André Monteiro.

por que não dar um porre
ficar bêbado
de vinho-tinta
inebriar o poeta
e vomitar o profeta
que quer blues na arte que pinta?

poeta é balão
de ar quente
que deixa rastro
eólico
pelas terras marítim(ic)as
de um quântico verso
líríco qual universo
Tártaro como o Elísio

poeta é Karamazov
é protótipo de Édipo
é Ham(let) aos famintos
é Palhaço ao poço
é... a gente quer valer
o pão de nó e osso
atalhado pela navalha
dos dias
das disritmias
no espelho debaixo do tapete

poeta é o chão esquecido
e os pés que dançam sobre o ar
é o interior revolvido do poema
e a onda que desfaz o mar
(dentro dos olhos
antes de chorar)

poeta é sazonal
feito de alma em mobral
e diz: rima acidental

Pra começar a estrofe diferente
sem o poeta, que se faz gente
e nem por isso deixa de ser poeta.

E sê-lo não o faz profeta
talvez um pouco mais poeta
repetindo-se na rima falha

Poeta não se alimenta de migalha
da alma de ninguém
e muito menos retém
o que a sua pode dar

poeta é armadilha...

Monday, 4 June 2012

Sobre ajoelhar no milho

Pai nosso
que estais no céu
desce aqui
que tão do alto
o problema
fica
cego.

Desvio de calendário

O teu aniversário
é só no dia seis de maio
e você nem liga
se eu esquecer o presente
mas, menino,
eu não esqueço
de você
em nenhum
tempo verbal.

Tuesday, 1 May 2012

Desembarque de consciência


Eu já devo ter comentado por aí que também tenho medo de altura, mas desconsidero o que vejo da janela de aviões. Quer dizer, é tão alto que eu nem vejo mais razão pra ter medo, não sei explicar direito, mas é mais ou menos isso.
O que me incomoda mesmo quando eu estou nesses processos de viagem é a parte de chegar ao ponto mais alto - literalmente - de uma viagem aérea.  Ah, como eu detesto a correria de embarcar para viagens longas de avião. Certo, não tão longas assim, visto que - nesse caso particular a ser contado - eu demoraria duas horas e meia pra chegar ao meu destino. No entanto, irritava todo aquele processo de fazer check-in prestar atenção em horários me organizar pra não perder o vôo e embarcar achar assento e torcer pra que o resto dos passageiros todos já estejam bem colocados em seus lugares (para que eu não precise me levantar nem trocar de lugar com ninguém).
O caso é que desta vez eu bem que tive que levantar para o cara - "senhor" acho que não dava, ele tinha uns 25 anos - que sentava na janela pudesse ir para o seu lugar.
Visivelmente vítima de ressaca-derivada-do-final-do-carnaval-recifense, ele usava um boné e um óculos escuros para esconder as olheiras, camiseta do Galo da Madrugada - o que veio a reforçar a minha crença na ressaca do indivíduo. Curioso, tinha as unhas pintadas de vermelho. De imediato, pensei que ele deve ter participado do bom e velho Bloco das Virgens de Olinda. Ri pro meu livro aberto sem propósito e observei com a minha visão periférica a preguiça de arrumar uma posição agradável para dormir do meu colega-de-vôo, que acabou por se conservar sentado, já que a aeromoça iria reclamar logo mais para que ele voltasse a cadeira para a posição normal antes que ele pudesse pensar em deitar, por conta da decolagem.
Finalmente, o passarinho gigante decidiu sair do lugar com o procedimento de costume e o inglês péssimo dos comissários de bordo. "É... meu humor não estava dos melhores". Olhei para o lado e o rapaz estava parado no mesmo lugar, com uma tensão típica daquelas pessoas que tem medo de voar. Achei até engraçado a forma com que as unhas vermelhas se enterravam nas mãos dele.
Pensei em engatar um diálogo qualquer e descobri que ele realmente tinha mais medo de altura que eu, por isso preferia evitar as janelas, mas era tímido demais para tomar ou pedir outro lugar. Ora, tímido? E estava nas Virgens? É, bem tímido, mas o álcool muda o temperamento da gente, né. E além de tudo, é meio impossível permanecer tímido quando se anda por Recife com um punhado de nativos. Ô, povo caloroso. Com siso eu tive que concordar, disse até que sofria do mesmo mal de timidez. Ah, como íamos sentir saudades das terras pernambucanas. Mas eu voltaria mais breve que ele, que só pisaria de novo lá no Carnaval. Acertei em cheio a idade dele! Nem sei como, já que nunca fui muito boa em adivinhar idades. Uma pena, ele não morava em Brasília, mas era estudante de Sociais! Ainda bem que temos meios modernos de manter contato, não é? Certamente! Eu bem que deveria ter dito pra ele que logo mais iria dar as caras pela cidade dele, pra assistir uns shows, mas esqueci no meio dos outros assuntos - inclusive, ele reparou que eu lia Cortázar e disse que a literatura latino americana o impressionava sempre e que ele sempre imaginou demais como seria se O Jogo da Amarelinha tivesse sido ambientado na Argentina. Observação onteressante, não é?
Conversa vai, conversa vem, Brasília volta (ou eu volto pra Brasília) e a gente se separa como bons amigos que só vão se ver uma vez na vida.
Pensei em engatar um diálogo, mas quem engatou foi a minha língua e eu não consegui dizer nada além do "Sim, obrigada. Ah, Coca-cola." típico ao serviço de bordo. Pensei em engatar um diálogo, mas tem sempre umassento entre o do corredor e o da janela.